O regime escravista é a "ordem prévia" e a "infeliz origem imanente" que continua a marcar, de maneira camuflada ou escancarada, a sociedade brasileira. Há nisso uma genealogia da crueldade toda particular. Não satisfeita com o desprezo social e a exploração máxima dos pobres reduzidos a objetos usados e descartados, essa estruturação sádica goza com a negação do valor universal dos direitos humanos, na contramão dos quais sempre vingou. Sua violenta grosseria reacionária ganharia em precisão e localização, diz AbSáber, se chamada de néo-escravista (em vez do rótulo, mais genérico nesse caso, de fascista).
Denegada, reprimida ou concedida sob a espécie do "ponha se no seu lugar”, a vida popular escravizada não acede por longo tempo a graus mínimos de simbolização palpável nos discursos nacionais. Este livro vai encontrá-la num meandro que é também um vislumbre: a memória de um soldado mercenário alemão de nome quase impronunciável - Carl Schlichthorst - que circulou pelo Rio de Janeiro